sábado, 14 de janeiro de 2017

PORQUE NÃO SOU UM DESIGREJADO

O termo “desigrejado” é relativamente novo e serve para designar àqueles que deixaram a igreja como instituição, mas que ainda alegam seguir a Cristo e aos seus ensinamentos. Os adeptos de tal prática defendem uma forma de cristianismo personalizado e individualista, com forte rejeição a religião institucionalizada, a liturgia e a necessidade da congregação regular. Resumindo, ser um “desigrejado” consiste em seguir a Cristo fora da igreja como instituição formal.
  
Porque não sou um desigrejado

O movimento originou-se nos EUA, onde, segundo o sociólogo e pesquisador Josh Packard, o percentual dos “cristãos sem igreja” já passa dos 30%. Muitos atribuem o avanço desse fenômeno às novas concepções de igreja, como por exemplo; a “igreja orgânica”, termo cunhado por Frank Viola e oriundo do conceito pioneiro: “expressão da vida orgânica”, defendido por Austin Sparks. O modelo orgânico se opõe ao conceito tradicional de igreja, defendendo a existência da congregação nos lares, de maneira informal, rompendo completamente com tudo o que é institucional.

A bem da verdade, as novas concepções sobre a definição de igreja colaboraram muito para o fortalecimento desse movimento, porém ele vai além, pois o “desigrejado” não abdica apenas da congregação formal (institucional), rompe também com qualquer outra forma de ajuntamento cristão. O “cristão sem igreja” vive uma espécie de cristianismo solo, sem a comunhão regular com os irmãos na fé, nem mesmo em reuniões informais.

Aqui no Brasil, o movimento dos "desigrejados" está em franca ascensão, principalmente entre o público mais instruído e formador de opinião pertencentes as classes A e B. Provavelmente a principal alegação dos que defendem essa forma de ser igreja é o descrédito crescente das instituições religiosas e parte dessa realidade é forjada e rapidamente disseminada nas redes sociais. Hoje, fatos verídicos e inverídicos correm numa velocidade impressionante, o que permite que notícias, ideias e informações sejam amplamente difundidas num curtíssimo espaço de tempo, sem que autenticidade, veracidade e procedência sejam checadas. Basta dar uma olhada em sites como o Facebook e você encontrará uma enxurrada de críticas e ofensas a respeito das instituições religiosas, muitas delas falaciosas e sem crivo algum.

O movimento dos "cristãos sem igreja" tem um forte apelo, pois justifica a decisão de caminhar com Cristo à parte da igreja formal com argumentos muito consistentes e outros nem tanto. Vejamos alguns: A crescente comercialização da fé; a manipulação exercida por líderes religiosos; a hipocrisia presente no meio evangélico; a ausência de uma pregação bíblica e cristocêntrica nas igrejas; o mundanismo no corpo de Cristo; a falta de comunhão entre os irmãos; decepções na igreja, etc. a lista é longa.

Grande parte dos argumentos dos que defendem esse estilo de cristianismo é muito plausível e até tentador, pois é fato que as razões elencadas são reais. Porém, fica a pergunta: Biblicamente é possível ser um “desigrejado” e ainda assim agradar a Deus? Penso que não. Apesar de concordar em parte com os "cristãos sem igreja”, acredito que é indispensável estar inserido numa congregação institucional por vários motivos. Vemos por todo o novo testamento, a ênfase dos apóstolos em relação à necessidade do cristão participar de uma comunidade da fé, pois a reunião dos crentes constitui o verdadeiro corpo de Cristo no mundo.

Passo a considerar os motivos que me impedem de romper com o sistema religioso no qual o cristianismo está inserido e me tornar um desigrejado:

1. Todas as bases bíblicas relacionadas ao tema apontam para à necessidade da congregação: (Sl. 84: 10; Mt. 16: 18; Lc. 11: 42; At. 2: 46-47; 5: 42; 11: 26; Rm. 15: 26; 1ªCo. 3: 11; 6: 1-6; 13: 1-2; 14: 6; 16: 1; 2ªCo. 9: 1-13; Ef. 4: 11-12; Hb 7: 8; 10: 25; 13:17), entre muitas outras.

2. As doutrinas bíblicas precisam ser interpretadas à luz da tradição milenar da igreja, para que não incorramos em interpretações equivocadas, baseadas apenas em experiencias pessoais e que na maior parte dos casos dão origem a falsos ensinamentos e heresias.

3. A igreja é o corpo de Cristo, onde os dons são distribuídos à cada um conforme o propósito de Deus visando à edificação de todos, ou seja, nós precisamos uns dos outros para sermos edificados . Ninguém possui em si mesmo os dons necessários para sua edificação espiritual (Rm. 12:3-8; 1ªCo. 12:7; 14:12).

4. A igreja precisa de pastores para apascentar o povo como guias espirituais que prestarão contas de cada alma a Deus (Hb. 13: 17).

5.    Precisamos da disciplina da igreja. Jamais vamos enxergar os nossos pecados sem o auxilio da comunidade da fé, bem como é impossível sermos disciplinados e tratados em nosso caráter sem o acompanhamento de outros cristãos. 

6. Em relação a comercialização da fé?  Infelizmente, essa é uma triste realidade presente em nosso meio. É fato que existem hoje verdadeiros supermercados da fé, onde a benção de Deus é comercializada literalmente. Nossa postura como cristãos deve ser sempre a rejeição a tal prática, nos afastando e denunciando os que a exercem.

7. E quanto a manipulação religiosa? Isso é mais comum em igrejas neopentecostais e comunidades independentes (igrejas com donos), nesse caso, o mais correto é procurar outra igreja. Se o problema ocorrer em congregações históricas, poderá ser resolvido no conselho da igreja local ou nas instâncias superiores da denominação.

8. Em relação a hipocrisia e ao discurso demagógico existentes na igreja? A liderança da igreja deve ser experimentada e autentica na exposição da Palavra e no testemunho. Se estamos enfrentando esse tipo de problemas em nossa congregação devemos repudia-los com palavras e principalmente com um testemunho cristão autêntico.

9. E se a pregação da igreja não for bíblica e cristocêntrica? Se os membros da congregação não dispõem de instrumentos para mudar o quadro, o melhor é procurar uma igreja fundamentada na exposição genuína da Palavra de Deus.

10. E quanto aos problemas relacionais no corpo de Cristo? Não podemos esquecer que a igreja é formada por seres humanos e por isso inevitavelmente vão existir situações desse tipo, porém, a bíblia nos ensina a perdoar e a pedir perdão e devemos praticar tais coisas.  Não podemos ficar pulando de igreja em igreja atrás da comunidade perfeita, pois não vamos encontrá-la. Os desgastes e decepções que acontecem entre os crentes devem colaborar para o crescimento na fé e em maturidade cristã.

Podemos ver claramente que nenhum argumento a favor do “cristianismo sem igreja” se sustenta. Devemos perseverar na congregação, amando uns aos outros, perdoando e sendo perdoados até a volta do Cordeiro de Deus. Somos chamados à congregação, mesmo com defeitos e debilidades, afinal a igreja perfeita só será encontrada no céu. Se você se considera um "desigrejado", peço que reflita e veja o quanto necessita da comunhão dos irmãos. Ore a Deus e peça discernimento para encontrar uma congregação onde você possa servir ao Senhor e ao próximo em amor. 

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